Sobrepeso

acúmulo de gordura e dificuldade de perda de peso não estão diretamente relacionados com falta de atividade física ou consumo de gorduras

Inicialmente o conceito de calorias é de certa forma um conceito equivocado quando se refere a alimentação e sobrepeso. Isso porque diferentes calorias possuem obviamente diferentes efeitos metabólicos em nosso corpo.

O que engorda mais, 500 calorias de chocolate ou 500 calorias de ovos? Obviamente as calorias do chocolate, pois os efeitos hormonais e metabólicos entre as mesmas quantidades calóricas de chocolate e de ovos são muito diferentes. Desta forma, já se percebe uma incoerência quando se toma como parâmetro a quantidade calórica dos alimentos na relação com sobrepeso ou processos de perda de peso. Obviamente calorias tem a sua importância, e, é possível ganhar peso mesmo em uma dieta com baixo carboidrato desde que a mesma seja hipercalórica.

Existe uma experiência bem interessante feito por Sam Feltham que demonstra nitidamente isso que está sendo dito sobre calorias. Sam Feltham é um autor britânico, e ele fez uma experiência consigo mesmo, sendo monitorado diariamente por vídeos onde ele passou 21 dias fazendo uso de uma alimentação hipercalórica de mais de 5000 kcal com baixo carboidrato e alta gordura, e repetiu o mesmo experimento fazendo uma alimentação hipercalórica com mais de 5000 kcal com alto carboidrato e baixa gordura.

Naturalmente ele ganhou peso em ambas as dietas, afinal de contas trata-se de uma dieta hipercalórica, porém, o fato interessante é que, os resultados observados nas fotos e no ganho de peso e circunferência abdominal foram impressionantes. Na dieta hipercalórica com baixa calorias ele ganhou apenas pouco mais de 1 quilo, e na dieta hipercalórica com maior quantidade de carboidrato ele engordou mais de 7 quilos. O que demonstra que, de certa forma as calorias são secundárias em relação na composição de macro nutrientes.

http://live.smashthefat.com/the-21-day-5000-calorie-carb-challenge/
http://live.smashthefat.com/5000-calorie-carb-challenge-day-21/

O organismo pode utilizar as calorias tanto para acúmulo de gordura ou para realizar funções hormonais e metabólicas, essa decisão é tomada pelo corpo, biologicamente.

Dito isso, o fato de associarmos fatores como balanço calórico com o problema de sobrepeso, obesidade é algo de certa forma, no mínimo “incorreto”, ou seja, de acordo com essa teoria, se comermos menos e realizarmos regularmente exercícios obteremos como resultado a perda de peso. E na prática isso não é observado em uma grande parte das pessoas. A solução não está na criação de um déficit de calorias, de, digamos um certo sacrifício. Para um determinado indivíduo é fácil correr 10 km, ou pedalar 100 km como parte de se manter ativo, mas para outras pessoas, uma simples caminhada muitas vezes é algo difícil num primeiro momento quando se decide perder peso.

O que de fato precisamos ter conhecimento, é que, existe em nosso corpo um hormônio cujo principal efeito no corpo é armazenar gordura, e isso não é algo novo, já é algo que se tem conhecimento há muito tempo, esse hormônio chama-se insulina, e que este hormônio é o responsável pelo acúmulo de gordura. E, desta forma, ter como objetivo primordial controlar os níveis de insulina, ou seja, tentar manter a insulina baixa. Não é lógico ou racional alguém se submeter a comer menos, ou até “passar fome”, criar um déficit calórico para perder peso. Então agora, a mudança é, fazer com que as calorias dos alimentos que ingerirmos ao invés de serem preferencialmente utilizadas para acúmulo/armazenamento de gordura, sejam agora utilizadas de fato e não preferencialmente armazenadas sob a forma de gordura.

O principal estímulo do hormônio insulina é a elevação da glicose, por esta razão uma ação de reduzir a quantidade de alimentos ricos em carboidratos é mais racional do que simplesmente realizar dietas muito restritivas, restritivas aqui entenda-se (comer muito menos ou deixar de comer). É preciso ter em mente que, muito mais importante do que manter o foco em cortar calorias, é entender como aquilo que ingerimos tem efeitos na manipulação dos hormônios no nosso corpo, conforme já comentado acima, 500 calorias de ovos é muito diferente de 500 calorias de chocolate.

Isso sem falar em outros fatores que estão relacionados com o metabolismo do nosso corpo, como por exemplo, problemas relacionados com hipotireoidismo, disfunções tireoidianas, problemas com a microbiota intestinal, entre outros. Acusar alguém que não consegue perder peso por ser incapaz de comer menos ou porque não gosta de se exercitar é no mínimo injusto, visto que além dos fatores como ingestão errada de “alimentos”, existem ainda outros fatores que tem impactos no metabolismo corporal, cuja origem também, vem da ingestão errada dos “alimentos”. Aqui alimentos está entre aspas, porque é sabido que uma grande parte da população julga como alimento produtos industrializados que são ricos em gorduras hidrogenadas, conservantes, corantes, estabilizantes e muito mais, temos ainda os farináceos refinados, açúcar refinados entre outros. Todos estes trazem consigo uma carga glicêmica altíssima.

Além disso, no que se refere a exercícios localizados para perda de gordura, não existem evidências científicas de que os exercícios localizados possuam efeitos localizados na eliminação das gorduras localizadas. É muito comum em academias ouvirmos que, se fizermos exercícios abdominais eliminaremos as gorduras abdominais, e isso não é verdade, pois os mecanismos pela qual o corpo perde e ganha gordura são, como estamos vendo, eles são hormonais, são sistêmicos, de modo que isso ocorre em todo corpo. Através de exercícios localizados podemos sim, contrair uma musculatura específica de uma parte do corpo, no caso do exemplo que está sendo dado, a musculatura do abdômen. No entanto, a musculatura do abdômen  não utiliza energia das gorduras que estão localizadas na região do abdômen, essa energia é obtida pelos nutrientes que estão circulando no sangue do corpo como um todo.

O foco do assunto não é o que comer ou o que não comer, contudo, se observarmos bem, há várias décadas atrás, antes dos alimentos industrializados, que na verdade nem poderíamos chamar de alimento, seria na verdade um produto alimentício, pois ele é de fato um produto e não um alimento, se observarmos bem, iremos notar que o carboidrato sempre esteve presente na dieta do ser humano, entretanto em proporções muito pequenas. Antigamente consumíamos os principais macros nutrientes como eles estavam disponíveis na natureza. Por exemplo uma raiz em sua forma selvagem, a exemplo da batata doce, é bem diferente da batata inglesa que é cultivada, que praticamente só tem amido e, portanto, com uma altíssima carga glicêmica.

Sabe-se que aproximadamente 1/3 da população consegue manter-se magra mesmo com uma dieta predominantemente baseada em carboidratos, mas isso não é a regra. Após o nascimento da ideia de cadeia alimentar que se deu por volta da década de 70, onde aconteceu um medo generalizado das gorduras, que há algum tempo já se sabe que não está relacionado com problemas de peso, nem tampouco responsável por problemas cardíacos, colesterol etc. Entenda aqui que estamos falando de gordura animal em sua forma natural, gordura não é sinônimo de óleos vegetais, que são extremamente prejudiciais e não estamos falando também de frituras com óleos vegetais. Infelizmente, aqui encontramos um problema de ordem política, financeira e de interesses. Se estivermos dispostos a fazer uso de alimentos da forma como ele está presente na natureza, como por exemplo ovos, queijos integrais (feitos artesanalmente), entre outros, isso não beneficia a indústria. 

Mas a partir do momento que se passou a considerar que tudo que vem da natureza é prejudicial, aí ocorre uma mudança, pois faz-se necessário substituir estas gorduras boas, presentes nos alimentos em sua forma natural, e o que foi criado para substituir tudo isso? A Industria retirou as gorduras boas e nos deu pão, massa, bolos, biscoitos, cereais matinais, etc. Se observarmos bem, nossos antepassados não morriam do coração por conta das gorduras dos animais. No entanto, décadas após tais mudanças, nunca se teve problemas cardíacos como antes, nunca se ouviu falar em epidemias de obesidade, diabetes como se ouve hoje em dia.

Precisamos mais do que nunca mudar o paradigma criado de que nossa alimentação tenha de vir em pacotes e em caixinhas, neste sentido precisamos da indústria para retirar as gorduras boas dos alimentos, e nos dando, em contrapartida alimentos ricos em carboidratos. Precisamos comer comida de verdade.

PROTEÍNAS, GORDURAS, CARBOIDRATOS E ACÚMULO DE GORDURA CORPORAL

Tanto as gorduras quanto os carboidratos são fontes primárias de energia para o corpo. As proteínas podem vez ou outra serem utilizadas para gerar energia, mas a função das proteínas é mais estrutural no corpo, as proteínas estão relacionadas com formação de enzimas no corpo, uma vez que o processo de conversão dos aminoácidos, que são os blocos construtores das proteínas para obtenção de energia é um processo com alto custo para o corpo, razão pela qual as proteínas serem difíceis de ser convertidas em gordura, uma vez que, do ponto de vista bioquímico a quantidade de passos que o organismo precisa realizar para converter proteínas/aminoácidos em gordura, faz com que a maior parte destas calorias das proteínas se percam neste processo de conversão sob a forma de calor.

A gordura praticamente não possui nenhum efeito hormonal no corpo no que diz respeito ao acúmulo de gordura. O que precisamos ficar atentos é, com o que nosso corpo irá fazer com aquilo que consumimos, e, neste ponto, os carboidratos estão diretamente relacionados com o acúmulo de gorduras do que com o consumo de gorduras propriamente dito numa dieta. Isso porque os carboidratos quando digeridos são transformados em glicose. A glicose é o principal estimulante na produção da insulina no sangue, claro, a glicose não é o único fator, mas é o principal contribuinte na produção de insulina, e a insulina é um hormônio que favorece bastante o processo de acúmulo de gordura no corpo.

Desta forma, se mantivermos os níveis de insulina sempre alta, estaremos favorecendo o acúmulo de gordura, e certamente este é um fator que atrapalha bastante pessoas que estão tentando perder peso. Essas seriam as diferenças no metabolismo destes principais macros nutrientes.

Para quem está desejando perder peso, o ideal é uma alimentação que mantenha os níveis de insulina mais baixos irá favorecer a perda de peso, desta forma, para quem deseja perder peso, manter o consumo de carboidratos baixos é importante.

GORDURA, GLICOGÊNIO E ARMAZENAMENTO E OBTENÇÃO DE ENERGIA

Basicamente o corpo armazena energia de duas formas:

Gordura: é a forma mais importante no armazenamento de energia, uma vez que através da gordura é possível armazenar energia de maneira quase que “ilimitada”, devido ao fato de que os tecidos gordurosos têm a capacidade de se expandir de modo a acomodar mais gordura.

Glicogênio: é a forma em que a glicose é armazenada no corpo, o glicogênio é armazenado principalmente no fígado e dentro das células musculares. O corpo possui uma capacidade muito limitada no armazenamento do glicogênio, razão pela qual em uma dieta onde temos proporcionalmente quantidades iguais de carboidratos, proteínas e gorduras o corpo preferencialmente usará primeiro o carboidrato e não a gordura. Desta maneira, uma forma de fazer com que o corpo “obrigatoriamente” use mais gordura para obtenção de energia, é importante não oferecer ao corpo carboidratos a todo momento, pois desta forma, o corpo primeiramente irá usar o carboidrato ao invés da gordura.

OBSERVAÇÃO

É importante deixar claro que, não se está pregando a ideia de uma dieta com baixo carboidratos em seu estado natural* como é o caso do feijão, arroz, mandioca, etc. O que está causando um estado de doenças relacionados ao peso nas pessoas são o excesso de carboidratos REFINADOS. Entretanto, a partir do momento em que uma pessoa já se encontra em um estado de doença, de sobrepeso, esta pessoa precisa necessita sim restringir a ingestão de alimentos ricos em carboidratos, mesmo sendo carboidratos em seu estado natural como já mencionado acima (feijão, arroz...). Vale lembrar que, a quantidade de carboidratos contidos nos alimentos naturais ricos em carboidratos não são suficientes para causar doenças, sobrepeso, porém, é alto para tratar uma pessoa que já se encontra com sobrepeso ou em um estado de doença como sindrome metabólica por exemplo. Em outras palavras, a restrição de carboidratos em seu estado natural trata-se apenas de uma ação com finalidade terapeutica, afim de, curar algo que não foi causado necessariamente pelo carboidrato em seu estado natural.

* carboidrato em seu estado natural
estamos dando ênfase em diferenciar carboidratos em seu estado natural dos carboidratos REFINADOS, os que advém dos produtos alimentícios industrializados, açúcares refinados, farináceos, etc.

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